terça-feira, 6 de agosto de 2013

Lógica - Matéria para o Segundo Ano.



Para Aristóteles a filosofia tinha um objetivo essencialmente metodológico. Sua lógica se preocupava em apresentar o caminho correto para a investigação e a demonstração científicas. O conhecimento aristotélico baseava-se em:
·               Observação dos fenômenos particulares
·               Intuição dos princípios gerais ou universais a que os fenômenos obedeciam
·               Dedução de causas dos fenômenos particulares
Se esses princípios gerais fossem adequadamente formulados, e suas consequências corretamente deduzidas, as explicações só poderiam ser verdadeiras, segundo o ilustre filósofo.

Lógica

Considera-se que Aristóteles seja criador da lógica formal, embora a primeira formulação apareça na obra de Parmênides, filósofo pré-socrático que enunciou o princípio da não contradição: “o ser é e o não ser não é”. Assim se entende que: ao se afirmar algo sobre alguma coisa, não se pode afirmar ao mesmo tempo o contrário sobre essa mesma coisa, como dizer que o ser não é. O mesmo seria dizer que uma pessoa é alta e baixa ou gorda e magra, um absurdo do ponto de vista lógico.
         Outros dois princípios fundamentais da lógica:
·               Princípio da identidade – uma coisa é sempre idêntica a ela mesma (ou A = a)
·               Princípio do terceiro excluído – uma afirmação é verdadeira ou falsa, pois não é possível um terceiro valor.
Assim, dizer que “aquela mulher é Maria” é verdadeiro ou falso, pois não uma terceirapossibilidade.
Em continuidade a esse tipo de questão, Aristóteles declarou que a verdade e a certeza dependem de normas do pensamento que permitam demonstrações corretas e irrefutáveis. Seu projeto de forjar um instrumento mais seguro para a constituição da ciência gerou o Organon, conjunto de livros sobre a lógica: Categorias, Sobre a Interpretação, Analíticos Primeiros, Analíticos Segundos, Tópicos, Refutações Sofísticas.
Nessas obras sobre lógica, a dialética formulada por Platão se reduz à condição de exercício mental que, por não lidar com as próprias coisas, não podem atingir a verdade.
Essa concepção da dialética como “ginástica do espírito”, útil como fase preparatória, mas incapaz de chegar à certeza, justificativa a concepção aristotélica da história de da dialética – é útil e indispensável na medida em que conduz a própria superação, quando o provável se transforma em certeza, alcançada apenas pelo pensamento aristotélico.
No que diz respeito ao âmbito da lógica, Aristóteles estabeleceu uma diferenciação entre:
·               Lógica formal ou menor – entendida como a parte da lógica que estabelece a forma correta das operações intelectuais, ou seja, que garante a correção do raciocínio de tal forma que os princípios que descobre e as regras que formula se aplicam a todos os objetos do pensamento, quaisquer que sejam. Como as operações de espírito são em número de três – apreensão, juízo e raciocínio – a lógica formal compreende normalmente três partes, que tratam da apreensão e da ideia (do juízo e da proposição), di raciocínio e da argumentação.
·               Lógica material ou maior – também chamada modernamente de metodologia, corresponde à parte da lógica que determina as leis particulares e as regras especiais que decorrem da natureza dos objetos a conhecer. Ela define os métodos das matemáticas, da física, da química, das ciências naturais, das ciências morais etc., que são outras tantas lógicas especiais.
A lógica formal representa, portanto, o conjunto de regras de pensamentosindependentes do conteúdo dos pensamentos. O estabelecimento dessas normas nasceu num meio de retóricos e de sutis argumentadores, sendo necessário então partir de uma análise da linguagem corrente, para identificar seus diferentes usos e, ao mesmo tempo, enumerar os diversos sentidos atribuídos às palavras empregadas nas discussões. Eis porque as Categorias abrem Organon com pesquisas sobre as palavras, buscando evitar equívocos que resultam do uso de homônimos e sinônimos. Inicia o Organon com uma análise da linguagem, primeiro sobre as palavras (Categorias), depois as proposições (Sobre a Interpretação). Essa obra classifica as proposições segundo a quantidade e a qualidade em universais afirmativas (Todo homem, todo animal, toda flor etc.) universais negativas (nenhum homem, nenhum peixe), particulares afirmativas (Alguns homens são...) e particulares negativas (alguns homens não são...). Além disso, identifica cinco tipos de atributos possíveis nas proposições: gênero, espécie, diferença, próprio e acidente. Em seguida, elabora as regras do silogismo, procedimentos pelo qual as proposições são encadeadas rumo a uma conclusão necessária, como neste exemplo:
Todo homem é mortal
João é homem
Logo João é mortal
Conforme essas premissas, chega-se a uma conclusão evidente e irrefutável, mas para tanto é necessário seguir certas regras como as seguintes:
·               De duas proposições particulares, nada se segue
·               De duas proposições negativas, nada se segue
·               A conclusão que se segue de duas premissas afirmativas é uma afirmativa
Todo mecanismo do silogismo repousa no termo médio, justamente o que aparece em ambas as premissas e que permite sua junção. No exemplo citado, o termo médio é “homem”, pois é o que permite ligar “Todo homem é mortal” com “João é homem”. Observa-se que o termo médio jamais aparece na conclusão.
O silogismo também funciona com proposições falsas, como as premissas “Todo peixe voa” e “Bacalhau é peixe”, concluindo-se, portanto, que “Bacalhau voa”. Esse exemplo não fere nenhuma das regras da lógica, mas por outro lado, não condiz com a realidade. Aristóteles afirma então que a ciência não precisa apenas de coerência interna, entretanto deve ser o encadeamento lógico de verdades. Assim, para equivaler a uma demonstração científica, o silogismo deve ser formalmente rigoroso mediante premissas verdadeiras.
O conhecimento demonstrativo (silogismo) pressupõe conhecimentos indemonstráveis:
·               Axiomas – conhecimentos indemonstráveis que se impõem a qualquer sujeito pensante e se aplicam a qualquer objeto do conhecimento, como princípio da não contradição.
·               Definições nominais – explicitam o significado de determinado termo, como triângulo, sendo usados como teses, pontos de partida para uma demonstração
Os axiomas seriam comuns a todas as ciências; as definições nominais diriam respeito a setores particulares da investigação científica.
Como à ciência não basta ser internamente coerente, devendo ser uma ciência sobre a realidade, precisa ainda de hipóteses, pelas quais afirma a existência de certos objetos. A definição nominal diz apenas o que uma coisa é, mas não afirma que ela é, ou seja, que realmente existe. Afirmar a existência seria, assim, mais do que apresentar uma tese, explorar o significado de uma palavra; seria assumir uma hipótese. Por meio de hipóteses, cada ciência afirma a existência de certos objetos, o que não pode ser feito por demonstrações. A lógica, para não ficar restrita ao domínio das palavras, remete a especulações metafísicas.
O silogismo permite atingir e superar a hipótese, pois define a constituição essencial e necessária dos seres ao apontar o elo entre o gênero (animal) à diferença (racional), obtendo-se a espécie (homem). Justamente por apresentar um elo essencial e necessário entre gênero e diferença não pode haver definição essencial de “homem branco”, pois “branco” é acidente, atributo não essencial de “homem”. O indivíduo “Sócrates” por ser descrito minuciosamente, porém jamais definido. O indivíduo não é objeto de ciência –Aristóteles concorda com Platão. O silogismo constitui um tipo de prova racional e inaugura a longa corrente da lógica formal que evolui até hoje.
Aristóteles também foi o ponto de partida de comprovação racional de outro tipo, o argumentativo ou persuasivo, seguido por Perelman no século XX. Essa tradição voltou-se para a linguagem corrente, informal, buscando descobrir os requisitos da persuasão para maior força persuasiva de determinado argumento. O que se pretende não é obter uma conclusão necessária e universal como no silogismo, mas obter ou fortalecer a adesão de alguém a uma tese que lhe é proposta, permanecendo assim no âmbito do discurso não formalizado do intersubjetivo, do dialógico e do circunstancial.
Aplicando o silogismo (construção de definições científicas pelo relacionamento entre gêneros dos seres e suas diferenças específicas), O Liceu fez uma classificação acurada das espécies em gêneros e subdivisões. Rejeitando a teoria platônica das ideias, verificou a estrutura básica dos seres – a única realidade é a dos seres singulares e concretos. A partir disso, o conhecimento empírico, a ciência deveria estabelecer definições essenciais e atingir o universal.
O conhecimento da experiência é aplicável a casos. Já o conhecimento da ciência se dá por princípios. A sensação e a percepção nos advêm dos sentidos. Depois, memória e imaginação formam uma imagem, então desmaterializada por uma inteligência patiens, ao mesmo tempo universalizada, formando o conceito por um intelecto agens.
Assim, Aristóteles concordou com Platão ao considerar que só pode haver ciência do universal, cujo conhecimento implica consciência das razões que tornam necessária determinada afirmativa, necessidade essa que se evidencia quando se aplica a asserção, incluindo sua causa. O filósofo investiga nos analíticos exatamente encadeamento rigoroso de proposições, de modo a exprimir um raciocínio que pretenda concluir por uma afirmativa necessária. Ao contrário de Platão, que adotou o método da divisão (pode-se obter a definição de uma espécie por sucessivas divisões do gênero em que ela estiver contida), Aristóteles considera insuficiente esse procedimento, pois as dicotomias colocam opções sem determinar necessariamente o rumo a tomar. Com o silogismo surge um encadeamento necessário de afirmativas.
Enquanto Platão, movido pela índole matemática de seu sistema, considerava os objetos cópias imperfeitas de arquétipos que subsistiriam independentemente de seus reflexos passageiros, Aristóteles rejeitou a transcendência dos arquétipos, considerando-os uma duplicação desnecessária da realidade sensível. Para ele, a única realidade era constituída por seres singulares, concretos, mutáveis. Dessa realidade, isto é, do conhecimento empírico, é que a ciência deve tentar estabelecer definições essenciais e atingir o universal, seu objeto próprio. Toda a teoria aristotélica do conhecimento constitui uma explicação de como partir de dados sensíveis que mostram sempre o individual e concreto para chegar a formulações científicas necessárias e universais.
Essa passagem se faz por indução, que fornece o conceito. Ao contrário de Platão, Aristóteles não considerava o universal (pássaro, por exemplo) como algo subsistente e, portanto, substancial. Se o universal existe apenas na mente, sob a forma de conceito, ele não é criação subjetiva, mas está fundamentado na estrutura mesma dos objetos que o sujeito conhece pela sensação. Os conceitos não reproduziriam as ideias transcendentais, mas a estrutura inerente aos próprios objetos.

Exercícios.

1-        Explique o significado dos três princípios básicos da lógica formal.
·               Princípio da identidade
·               Princípio da não contradição
·               Princípio do terceiro excluído
2-        Diferencie lógica formal de lógica material, segundo a concepção aristotélica.
3-        Indique a obra de Aristóteles dedicada à lógica, bem como seus primeiros livros e os assuntos estudados neles.
4-        Classifique os juízos indicados segundo sua quantidade e qualidade.
a)               Toda casa é de madeira.
b)               Alguns cachorros não são bravos.
c)                Nenhuma guerra é justa.
d)               Alguns ladrões são bons.
5-        Identifique as três regras básicas para se formular um silogismo.
6-        Construa um silogismo apontando um termo médio.
7-        Estabeleça a distinção lógica entre validade e verdade fornecendo exemplos.
8-        Ao se referir aos silogismos, Aristóteles afirmou que se tratava de um tipo de conhecimento demonstrável, mas cuja execução exigia conhecimento indemonstráveis, que seriam os axiomas e as definições nominais. Explique o que são axiomas e definições nominais, fornecendo exemplos.
9-        Explique o significado do termo hipótese na lógica aristotélica.
10-     Expliqueque é a lógica persuasiva ou argumentativa. 

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